domingo, 7 de novembro de 2010

Dream A Little Dream Of Me²

O farol azulado da moto cortava o crepúsculo que morria aos poucos e paisagem ao redor parecia passear em câmera-lenta, convidando-os a admirar toda sua decadência. Os pneus rasgavam o asfalto em sua pressa egoísta, deixando apenas a ilusão de uma lanterna vermelha para trás.
Ele sentia o abraço dela apertando sua barriga e seu corpo procurando conforto, diminuiu a velocidade o bastante para poderem se comunicar. ‘Desculpe se estou indo rápido’ ele diz, ‘Está tudo bem, eu confio em você’ ela responde. Ele sorriu e retomou a velocidade. Estava impaciente, sentia urgência em chegar a seu destino, algo pressionava contra seu peito e o fazia martelar desconfortavelmente. Tinha sido uma noite e tanto para ambos e agora o final estava próximo, não apenas o final daquela noite, mas sim de tudo aquilo. Das conversas, das retrucadas, dos olhares, dos beijos, da paixão. Nada era tão ruim para ele quanto dizer adeus e ter que conviver com o buraco que a falta criava. Para ela não passava de rotina, sua vida sempre tivera de se adaptar a um novo ambiente e deixar o antigo no passado. Seus sentimentos eram forjados em vulcões e moldados em metal e seu coração tão resistente quanto o mais puro ouro.
Tiravam os capacetes e se dirigiam para a areia quando ela o abraçou forte, mergulhando a face em seu peito. Pensou em dizer algo e antes que pudesse abrir a boca percebeu que a Super-girl que tinha ficado muito tempo longe do sol agora se encontrava agora em seus braços, demonstrando e sendo aquela que era em sua terra natal; Indefesa e triste. Finalmente estava ali algo com o que ele poderia se identificar naquela pessoa tão cheia de si. Havia de ter alguma razão para ela, tão descontraída e serelepe, se aproximar dele, tão calado e seco. No fundo, ambos eram iguais; Duas pessoas cansadas de começar a viver uma vida que não chegaria ao final, que sempre seria interrompida, os obrigando a começar novamente. Ela levantou os olhos e retirou os óculos; não tinha receio de mostrar suas lágrimas, mesmo sendo a primeira vez que se revelava capaz de chorar na frente de outros. ‘Estou cansada’ ela diz, ‘Eu entendo’ ele responde. Ela o puxa para a areia e sussurra em seus ouvidos. Sussurra palavras que ele nunca imaginaria ouvir dela, palavras que aquela boca não pronunciariam se não viessem da alma. Os olhos castanhos dançavam nas orbitas em desespero, pego de surpresa ele não sabia o que fazer ou responder, não imaginava que seria tão difícil escutar. Não sabia que seria impossível para ele responder a mesma coisa olhando nos olhos dela. ‘Está tudo bem’ ela diz, ‘Desculpe’ ele responde. Ela o beija e a sensação de seus lábios úmidos, quentes é um raio cortando o céu, clareando e aquecendo tudo através de seu caminho.
Ali, ele pode demonstrar em atos o que descobriu não ser capaz de demonstrar com palavras.
Aquela noite, para os dois, fora diferente das anteriores. Descobriram algo novo, talvez por ser a última vez, talvez pelo fato de estarem nus não apenas fisicamente, porém com nada para encobrir seus sentimentos, mas.
Ali, ambos perceberam; o que vinham fazendo até agora estava errado e aquela seria a forma correta.

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