A luz da oficina parecia estar falhando e as vozes ficando mais distantes, a música em seus ouvidos se fundiam com o ambiente distante. “I’ll show you everything”, dizia o cantor com um ovo na boca. Estava pegando no sono e isso o agradava, não havia nada para se fazer a não ser dormir. Foi então que alguém o cutucou: “Ei, cara, porque as vezes você aumenta o volume do seu celular até te deixar surdo e se distancia do mundo ?”
Não respondeu, limitou-se a sorrir e retornar a fechar os olhos. A voz do cantor com um ovo na boca continuou, mas ele não sonho nem adormeceu, apenas pensou, lembrou, imaginou.
“Engraçado como ontem eu estava desesperado para retornar a meu quarto. Pensei até em bater o cartão mais cedo, falar com o Adilson que estava não muito bem para ir pra casa. Mas não tem ônibus a essa hora. Sorte minha, pois se tivesse eu teria feito a besteira de mentir para meu supervisor e sair do trabalho mais cedo.Engraçado, também, como hoje o maldito tempo está voando como o Neo no Matrix Reloaded. E ontem estava lento como aquele barco voltando da ilha. Isso me lembra como fiquei puto com meu pai pelo fato dele ter parado no frade. Droga, eu estava com pressa, seria o último dia...
Mas tudo bem, passou. Passou e se foi.”
Lembrou-se da menina cutucando ele agora pouco e fazendo a pergunta.
“Por quê ? Por que quando certas músicas tocam eu não quero que nada as atrapalhem e nem corte meus pensamentos. É o único momento que eu retorno para aquela época. É quando eu tempo não importa e as memórias se tornam tão doce quanto o mel, só que menos enjoativas.”
Abriu os olhos e olhou em volta da oficina; Estava vazia, pegou o celular e olhou para as horas. Levantou-se da cadeira e se dirigiu a garrafa de café. Café bom, era aquele. Forte, porém doce. O aroma era bom, o aroma o lembrava de café “moído na hora”, café moída na hora o lembrava de uma certa cidadezinha. Pegou o celular enquanto derramava o café quente por sua garganta e selecionou uma música, aumentou o volume e voltou para sua cadeira. “Por que...”, pensou, “... tenho que sempre lembrar dela e dele, mesmo quando sei que vai demorar para vê-los novamente ? Por que preciso sofrer com as lembranças de ambos os rostos sorridentes, ambas as vozes ?”
Esperou um tempo com os olhos abertos, perdidos no nada. “Well then, sofrerei, whatever. Aqueles dois são únicos. Continuarão sendo. Mesmo que um dia eu não seja mais único para eles.”
Adormeceu. Antes mesmo de criar uma história, como sempre fazia. Adormeceu com saudades do abraço naquela mulher com aparência de menina e com a voz daquele bebê hiperativo pedindo para comprar bala.
Nenhum comentário:
Postar um comentário