O barulho dos carburadores é intenso ao redor, a fumaça escurece o céu a ponto de encobrir o sol completamente. Não há uma fresta sequer.
Ele se encontra a minha frente, sentado a modo que consiga conter sua corpulência na pequena cadeira de madeira. Caninos descomunais e afiados como lâminas brotam de seus grossos lábios, são protuberâncias perturbadoras. Seu enorme nariz bufa como bufariam grandes touros criados livres em pastos intermináveis. Seus olhos, cerrados com crescente desconfiança espiam por de baixo de suas sobrancelhas apertadas. “Jogue”, ele diz. E eu jogo. Não é um jogo bom; está mais do que na cara que irei perder, mas ele é um demônio e com toda certeza está roubando, então o que me impedirá de roubar também ? Nada, pois é isso que faço. Puxo uma carta que escondo embaixo da cadeira e meu jogo muda radicalmente. Os olhos dele ainda estão cerrados e agora ele mastiga sua língua em uma pontada de impaciência. Eu jogo, ele arregala discretamente os olhos e grita: “VOCÊ ESTÁ ROUBANDO !” Digo a ele que não, não estou roubando. Ele bufa com mais força e puxa uma carta. Estampa na cara um sorriso digno de um vencedor, expondo todos os seus enormes dentes para fora. Ele faz sua jogada e acaba vencendo o jogo. Zomba, como todos os demônios que se prezem faria. Aponta o dedo e solta suas risadas sombrias. Diz: “Humanos não prestam nem mesmo para um jogo !” Ao seu lado, vindo aparentemente do nada, um demônio menor com aparência de Poltergast pigarreia alto e em suas mãozinhas vem trazendo uma caixa de madeira bem selada. “Não sei não. Na ilha que trabalho, há vários humanos legais.” Diz ele. E assim como apareceu do nada, para o nada ele desaparece.
Meu ônibus vai partir, recolho minhas cartas e retiro-me da mesa. O demônio reclama, diz que não aceito perder. “Preciso ir agora, mas isso não quer dizer que eu não vá querer jogar novamente com você, amigo. Te vejo outro dia.”, entro no ônibus e vejo o demônio se dissolver em névoa com uma expressão mal-humorada.
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